de Elizabete Tamanini,
doutora em Educação e Cultura pela Unicamp. Professora colaboradora da Univille e gerente de patrimônio da Fundação Cultural de Joinville.
Patrimônio, museu e educação:
interfaces com a nossa história¹
interfaces com a nossa história¹
A palavra patrimônio tem diferentes sentidos, mas o que mais significamos é que o uso deste conceito é recente na história da preservação, conservação e educação. Quando ouvida ou lida, esta palavra pode soar familiar, estranho ou distante do cotidiano de pessoas de diferentes realidades sociais. Temos observado que muitas pessoas logo associam patrimônio a coisas herdadas de família, herança, bem imóvel, valor monetário, objeto de valor e, de fato, essa relação faz certo sentido.
A origem da palavra patrimonium é latina e referia-se entre os antigos povos romanos a tudo o que pertencia ao pai, pater, ou pater famílias, pai de família. Compreendia-se a família como mulher e filhos, propriedades do senhor. A palavra patrimônio refletida acima vem de algo que herdamos de maneira paterna e familiar. A partir do século 20, a palavra incorpora na representação social relações com processos de preservação e conservação da memória coletiva e de identidade.
A memória e a identidade presentes no patrimônio podem ser negociadas e não são fenômenos que devam ser compreendidos como essências de uma pessoa ou de um grupo. A criação dos museus nacionais, no século 19 e início do século 20 foi resultado da influência econômica e política na definição do que deveria ser preservado, referenciado como patrimônio, e que simbolizasse uma identidade um país, uma nação pensando como estratégia de hegemonia social, cultural e política.
O caráter da reflexão, neste momento, caminha para o sentido e para o pertencimento do patrimônio herdado socialmente. Especialmente os museus, ainda guardam e preservam formas saudosistas, românticas, elitistas e exóticas de narrar a memória social, construindo, em muitas situações, identidades inventadas.
Quando pensamos sob uma perspectiva dialógica, recorremos ao conjunto das representações sociais para o estabelecimento de negociações, construindo, a priori, a possibilidade de se optar a respeito das memórias, das identidades que significam o patrimônio social a ser conservado.
Sejam estes elementos forjados em espaços criados oficialmente como os tradicionais museus ou espaços com novas concepções de cuidado, seleção e socialização do patrimônio como casa de cultura, espaço de referência comunitária, museu vivo, eco-museu, museu comunitário, museu integral, centro cultural, estação de memória, arquivo de referência da cultura popular, planetário a olho nu e outras experiências.
Estes espaços deverão representar a memória, identidade e cultura da comunidade onde estão inseridos. Poderão, sobretudo, promover rupturas e contribuir com a educação entendida numa dimensão humanista.
O patrimônio representado na cultura material e simbólica é resultado de um processo histórico, político e social. Por séculos, foram os museus e centros culturais que assumiram para si a concepção de conservação do patrimônio. Mas os museus e espaços de memória passam por mudanças. A pesquisa científica é a base para a construção de conhecimentos a partir de seus acervos que possuem ou escolhem como tema gerador de função social.
O desafio exige um exercício de tolerância que, na perspectiva Freiriana, revelaria, em diferentes realidades, descobertas de temas problematizadores comuns. A valorização do patrimônio só será compreendida e assumida socialmente quando construirmos relações democratizadoras em instituições culturais e educativas.
Avançamos qualitativamente na definição de políticas públicas de preservação nos últimos tempos. No Brasil, a criação do Sistema Nacional de Museus (2004), o Instituto Brasileiro de Museus (2009), a instalação de fóruns e sistemas estaduais e municipais têm contribuído para o debate em torno da problemática.
Há, ainda, vácuos no investimento da qualificação estrutural das instituições que atuam com o patrimônio e a educação. Temos muitos museus e centros de memórias que são somente depósitos. E muitas escolas continuam com muitos estudantes nas salas de aulas, mas sem compreender o sentido de apreender e educar-se.
Não se pode mais admitir tamanha disparidade entre um conceito de instituição que preserva, pesquisa, comunica e divulga e um conceito de “depósito”. Ou de uma postura educativa centrada na condição de receptores de conhecimentos já reproduzidos para o desafio da problematização de ler o mundo para transformá-lo.
¹Defender – Defesa Civil do Patrimônio Histórico.
Colunas Anteriores
Opinião de TRANSDUCTORES,
Apresentando o Projeto
Opinião de Maria Acaso,
Questões sobre Educação, Museus e Arte
Opinião de Gabriela Figurelli,
III Seminário Iberoamericano de Museologia
Opinião de Mariana Mello Burlamaqui,
Museus e Divulgação Científica
Opinião de Ricardo Rubiales García Jurado,
O conceito de mediação (e ação)
A origem da palavra patrimonium é latina e referia-se entre os antigos povos romanos a tudo o que pertencia ao pai, pater, ou pater famílias, pai de família. Compreendia-se a família como mulher e filhos, propriedades do senhor. A palavra patrimônio refletida acima vem de algo que herdamos de maneira paterna e familiar. A partir do século 20, a palavra incorpora na representação social relações com processos de preservação e conservação da memória coletiva e de identidade.
A memória e a identidade presentes no patrimônio podem ser negociadas e não são fenômenos que devam ser compreendidos como essências de uma pessoa ou de um grupo. A criação dos museus nacionais, no século 19 e início do século 20 foi resultado da influência econômica e política na definição do que deveria ser preservado, referenciado como patrimônio, e que simbolizasse uma identidade um país, uma nação pensando como estratégia de hegemonia social, cultural e política.
O caráter da reflexão, neste momento, caminha para o sentido e para o pertencimento do patrimônio herdado socialmente. Especialmente os museus, ainda guardam e preservam formas saudosistas, românticas, elitistas e exóticas de narrar a memória social, construindo, em muitas situações, identidades inventadas.
Quando pensamos sob uma perspectiva dialógica, recorremos ao conjunto das representações sociais para o estabelecimento de negociações, construindo, a priori, a possibilidade de se optar a respeito das memórias, das identidades que significam o patrimônio social a ser conservado.
Sejam estes elementos forjados em espaços criados oficialmente como os tradicionais museus ou espaços com novas concepções de cuidado, seleção e socialização do patrimônio como casa de cultura, espaço de referência comunitária, museu vivo, eco-museu, museu comunitário, museu integral, centro cultural, estação de memória, arquivo de referência da cultura popular, planetário a olho nu e outras experiências.
Estes espaços deverão representar a memória, identidade e cultura da comunidade onde estão inseridos. Poderão, sobretudo, promover rupturas e contribuir com a educação entendida numa dimensão humanista.
O patrimônio representado na cultura material e simbólica é resultado de um processo histórico, político e social. Por séculos, foram os museus e centros culturais que assumiram para si a concepção de conservação do patrimônio. Mas os museus e espaços de memória passam por mudanças. A pesquisa científica é a base para a construção de conhecimentos a partir de seus acervos que possuem ou escolhem como tema gerador de função social.
O desafio exige um exercício de tolerância que, na perspectiva Freiriana, revelaria, em diferentes realidades, descobertas de temas problematizadores comuns. A valorização do patrimônio só será compreendida e assumida socialmente quando construirmos relações democratizadoras em instituições culturais e educativas.
Avançamos qualitativamente na definição de políticas públicas de preservação nos últimos tempos. No Brasil, a criação do Sistema Nacional de Museus (2004), o Instituto Brasileiro de Museus (2009), a instalação de fóruns e sistemas estaduais e municipais têm contribuído para o debate em torno da problemática.
Há, ainda, vácuos no investimento da qualificação estrutural das instituições que atuam com o patrimônio e a educação. Temos muitos museus e centros de memórias que são somente depósitos. E muitas escolas continuam com muitos estudantes nas salas de aulas, mas sem compreender o sentido de apreender e educar-se.
Não se pode mais admitir tamanha disparidade entre um conceito de instituição que preserva, pesquisa, comunica e divulga e um conceito de “depósito”. Ou de uma postura educativa centrada na condição de receptores de conhecimentos já reproduzidos para o desafio da problematização de ler o mundo para transformá-lo.
¹Defender – Defesa Civil do Patrimônio Histórico.
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